Fazer carros à mão é uma arte quase extinta. Mais raro ainda é criá-los como se fossem esculturas. Numa pequena garagem, nos fundos de uma casa, em São Paulo, Toni Bianco, lenda viva do automobilismo nacional, constrói peças de arte sobre rodas.
O imbatível Bino

O início, no Brasil, não foi nada fácil. Mas, depois de tentar a sorte em vários setores, Toni acabou no meio automobilístico. Seu aprendizado como criador de automóveis começou na oficina de Oliviero Monarca, na Bela Vista.

A indústria nacional ainda não existia, mas Monarca criava e construía carros usando chassis e mecânicas de veículos acidentados.

Eram modelos únicos, quase todos com linhas inspiradas nos rabos-de-peixe americanos, que faziam sucesso na época, cerca de 1955.

Um dos carros que Toni ajudou a fazer foi um Maserati, encomendado pelo piloto Celso Lara Barberis. O carro ficou tão bom que chamou a atenção de outro piloto, Ciro Cayres, que logo pediria a Toni que transformasse uma barchetta Maserati num monoposto com motor de Chevrolet Corvette.

A entrada de Bianco no mundo das corridas se deu pela oficina de Victor Losacco (avô do atual campeão brasileiro de Stock-car, Giuliano Losacco). Na época, os carros mais importantes eram os “charutões” da categoria Mecânica Nacional.

Os de maior sucesso usavam chassis de Fórmula 1, equipados com motores americanos: Ferraris e Maseratis com motores Corvette ou até Cadillac. Baseado no que via nos carros importados, Toni faz seu primeiro carro, com chassi próprio e motor Corvette. Nele, Ciro Cayres quebra o recorde da volta no anel externo de Interlagos.

A marca, de 3 minutos e 37 segundos, levou dez anos para ser superada. Com “Seu” Chico – Em 1960 Toni fez o primeiro Fórmula Júnior nacional, com chassi próprio e motor Porsche 1.500 cm3 tirado de um Speedster. Com esse carro, Christian Heinz disputou em Brasília a corrida comemorativa da inauguração da nova capital do Brasil e foi o primeiro na categoria Mecânica Nacional.

Junto com Chico Landi, que no início dos anos 50 havia se aventurado na Europa, correndo algumas provas da Fórmula 1, Toni construiu uma série de cinco Fórmulas Júnior.

O curioso é que, concebidos para usar motores até um litro, pelo regulamento da categoria, vários deles acabaram equipados com mecânica bem mais potente e enquadrados como parte da Mecânica Nacional.

O primeiro da série, por exemplo, apesar de criado para usar um motor DKW de 1000 cm3, acabou estreando com um motor Stranguellini, feito na Itália. Depois, fez dois com motores Gordini, de 850 cm3, um com motor DKW e um com motor Simca, um V8 de 2.550 cm3.

Para uso próprio, Chico Landi adaptou ao chassi um motor do Alfa Romeo JK nacional, de quase dois litros.

A versatilidade do chassi dos Fórmula Júnior é impressionante. O originalmente feito com motor DKW foi adaptado para o Carcará, carro destinado a estabelecer o primeiro recorde brasileiro de velocidade, em 1966. Cumprida a meta, ele acabou nas mãos do piloto carioca Norman Casari, que usou a estrutura para fazer um protótipo equipado com motor do Ford Galaxie nacional, um V8 de 4,5 litros.

Retomando a atividade – O Casari A1 está preservado no Museu do Automobilismo Brasileiro, em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Ao lado dele, estão as três obras mais recentes de Bianco: um Fórmula Júnior com motor DKW, o Carcará 2 e uma barqueta com mecânica Alfa Romeo. “Eu queria um Fórmula Júnior para completar a galeria dos monopostos nacionais e sabia que eles não existiam mais. Aí, conheci o Toni e o desafiei a fazer o chassi número 6 para nós”, conta Paulo Trevisan, diretor do museu.

Toni topou a parada. Sem usar desenhos – “está tudo aqui, na minha cabeça”, explica – e usando apenas algumas fotos de revistas como referência, terminou o carro em nove meses de trabalho solitário.

O sexto Fórmula Júnior andou pela primeira vez no Autódromo de Guaporé, com o número 10 usado na equipe Vemag pelo lendário piloto Mário César de Camargo Filho, o Marinho.

A carroceria de alumínio, feita à mão por Toni, ficou tão perfeita que Trevisan decidiu não pintá-la de branco, a cor usada nos anos 60.

“Uma obra de arte dessas tem que ficar à mostra”, diz ele.

O desafio seguinte foi reproduzir o Carcará. Para Toni, o chassi não foi problema. Já a carroceria, que cobria completamente as rodas, não foi um trabalho fácil.

O primeiro passo da construção foi definir o tamanho exato do carro: a partir de fotos, novamente, Toni usou como referência o diâmetro das rodas para chegar às medidas originais.

Uma das obras mais significativas de Bianco foi o Bino, um carro de corridas feito para a Equipe Willys, na década de 1960.

“Eu devo minha carreira a este carro”, diz o multi-campeão brasileiro Luís Pereira Bueno. “Ganhei quarenta corridas com ele”. O número é impressionante: a lenda diz que as vitórias foram 47, mas Toni acha que superaram 50.

texto: Jorge Meditsch

fotos: Claudio Larangeira