Há vinte anos atrás surgia na Itália o primeiro livro do mundo dedicado aos carros para crianças. Intitulado “Bebê Auto”, foi publicado pela editora automobilística de Milão em quatro idiomas, e foi também publicada uma edição americana com o título “Car for Kids”. O livro trouxe a tona um mundo até então desconhecido, tanto é verdade, que desde então nos Estados Unidos e na Europa surgiram dezenas de outras publicações sobre o mesmo tema.

 

 Carro para crianças, isto é, pequeno automóvel que as crianças poderiam pilotar, com pedais e motores, não confundir com as miniaturas de cada espécie para brincar ou colecionar. (Bebê Auto) demonstrou que se o verdadeiro automóvel tinha uma história que se iniciava nas polvorosas estradas nos idos de 1800, também os automóveis para crianças tinham um passado de respeito, rico de episódios desconhecidos, com seus pequenos e grandes protagonistas e mil e uma curiosidades. E era perfeitamente verdade: as anedotas e as imagens reproduzidas do livro fizeram rapidamente a volta ao mundo deixando vivo o interesse entre os nostálgicos das coisas do passado e dando vida a muitas iniciativas como mostras, concursos, mercados e revendedores especializados. E com a ocasião se descobriu que existiam tantos colecionadores e também apaixonados que se dedicavam à restauração dos velhos artefatos. Assim como para os carros dos adultos.

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O leitor não imagina ao certo quantos carrinhos de cada tipo foram produzidos no século passado e quantas fábricas européias, americanas e também asiáticas que se dedicaram a este gênero de produção.  Nasceu o carro para o papai, não podia faltar um para o filho, assim os primeiros artesãos iniciaram os trabalhos já no início do séc. 20, partindo do triciclo, do qual utilizaram rodas e aros, pedais e correntes, prepararam carros um pouco rústicos com carroceria de madeira e revestido com chapas de metal que todavia custavam muito caro, e era um gênero de luxo reservado às poucas famílias ricas da época. Em qualquer caso, foram estas fábricas de velocípedes, já muito ativas, a tomarem iniciativa. E assim os pequenos carros começaram a ter o seu próprio setor especializado nos primeiros catálogos de brinquedos, junto com carruagens, carroças, cavalinhos e triciclos. E quantos carros para adultos continuavam a fazer progressos, os para crianças sabiam estar no mesmo passo e nos negócios surgiam carrinho sempre mais graciosos, que procuravam imitar os verdadeiros.

 

Assim alguns fabricantes começaram a se fazer notar; na Itália a predominante era Giordani de Bolonha que inaugurada em 1895, apresentava em seu catálogo de 1915 um simpático carrinho de dois lugares que custavam ₤50,00 (cinqüenta liras), na França a Eureka se fazia conhecer, pois vinha de um complexo fabril líder do setor, na Inglaterra se erguia a Lines que por décadas, pois com a marca Triang, produziu uma infinita série de esplêndidos carrinhos, na Alemanha existia a Moko. Nos Estados Unidos, para citar entre tantos nomes, a Toledo, a Gendron, a Pedal móbile, a Sidway e a Stilcraft.

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Os catálogos faziam sonhar de olhos abertos os pequenos pilotos. Para tornar sempre mais apetitosos os seus produtos diversos fabricantes não exitaram em batizar os seus carrinhos com nomes dos carros de verdade, e assim apareceram pequenos Buicks, Packards, Chryslers, Rovers, Nashs, Dodges, Stuts, Mercer um pouco maiores que um metro que poucos se assemelhavam aos carros de verdade, mas com aqueles nomes adquiria indubitavelmente um fascínio. De qualquer maneira o mini carro dos anos 10 e ainda mais dos anos 20, já eram pequenas jóias, o aspecto melhorava a cada dia, a mecânica fazia contínuos progressos e quanto aos acessórios, bastava dar uma olhada numa propaganda de 1924 da americana Toledo para encontrar em um pequeno conversível todas essas maravilhas: portas que abriam, pára-brisas, espelhos retrovisores, console para colocar os instrumentos, câmbio e freio, faróis, placa, rodas a disco cobertas por borracha, para choque, assentos embutidos, capota móvel, buzina e varias faixas. Com orgulho os construtores definiam os seus super carrinhos De Luxe: (1 ano na frente da concorrência). 

 

 

 Os fabricantes de cá e de lá do oceano competiam para inventar novidades que superasse a fantasia das crianças e dos adultos e ainda surgiam também pequenos caminhões, carros de bombeiro, da polícia e do exército com suas respectivas características e não faltavam naturalmente os carros de corrida. Era verdadeiramente de enlouquecer. Na segunda metade dos anos 20, para dar um novo incremento a este mercado surgiu a eletricidade. Uma pequena bateria a bordo dava vida aos faróis, e fez funcionar as buzinas dos mini carros, mas, sobretudo o que causou sensação foram os primeiros motores elétricos montados nos carros para crianças. Um carrinho elétrico tinha porém custos proibitivos e é por isso que a sua difusão se deu alguns anos depois. Não faltaram porém casos memoráveis que, pela própria excepcionalidade, passaram para a história.

 

Etore Bugatti, no auge da sua luminosa carreira de construtor de carros que o havia levado da Itália para a França, construiu em 1927 para seu filho Roland uma cópia perfeita da sua lendária Bugatti “35”, que não terminava de colecionar vitórias nas competições esportivas. Com cerca de dois metros, a esplêndida maquininha tinha um motorzinho elétrico capaz de lhe dar a velocidade de 15km/h. do protótipo passou para a produção de uma pequena série de noventa exemplares, que terminaram nas casas dos magnatas da indústria, soberanos e outros personagens ilustres.

Audi Auto Union Type C pedal car

 

Uma dessas mini Bugattis, doadas pela Casa Agnelli, se encontra no museu do automóvel de Turim. Mas também outros construtores de carros colocaram os olhos sobre os carros para crianças. André Citröen sustentava que as primeiras palavras que uma criança deveria dizer eram ”papai, mamãe e Citröen”. Convencido que os automóveis de brinquedo eram objetos promocionais de primeira importância, ordenou em poucos anos a uma oficina especializada meio milhão de carrinhos em lata para distribuir a sua clientela; entre estas apareceram também dois carrinhos para crianças: a primeira era uma perfeita reprodução da “5HP” de 1925 de um metro e meio, que primeiro foi feita com pedais e depois com motor elétrico; a segunda, uma “C4” de 1928 ainda mais refinada. Os dois modelos expostos nas vitrines das concessionárias Citröen fizeram depois, a alegria de alguns colecionadores afortunados.

 

1955 Austin Healey 100S pedal car

Não foram, todavia estes os únicos episódios “incríveis da época”. “Bebê Auto” de excepcional refinamento e quase sempre construídos um único exemplar por cliente. Eram sempre levados à Ribalta pelas crônicas mundiais. Em 1932, a Lines inglesa construiu um mini Rolls Royce para a princesa Elizabeth de 4 anos (futura Rainha da Inglaterra), e sempre à Casa reinante britânica a Citröen presenteava em 1937, duas “traction avant”, enquanto em 1934 a Panhard doa uma fiel cópia do seu 6 cilindros ao filho do sultão de Marrocos. E ainda, duas Hispano-Suiza em miniatura com motor elétrico e velocidade de 40km/h para os filhos dos industriais Esders. E a lista poderia continuar.

 

Os carros para crianças viviam um momento mágico nos anos 30, na Europa e na América surgiu a moda das corridas com crianças ao volante: se organizou por todos os lados, nos jardins, nos parques, nas praças e enfim nos autódromos. Quem tem um carrinho pode exibi-lo, quem não tivesse podia alugá-lo. È de 1931 uma corrida disputada na pista do estádio Búfalo de Paris com a participação de 11 pequenas Bugattis. Em 1928 no Parque de Valentino de Turim foi o Príncipe de Piemonte Humberto de Sabóia em pessoa a dar a largada de carrinhos com pedais, rodeado das mais altas autoridades e de pais jubilosos.

 

Aproveitando esta onda de entusiasmo, as mais notórias fábricas de carros para crianças fizeram riqueza apresentando nos seus catálogos, esplêndidos carrinhos que sempre nos lembrarão os verdadeiros: são ainda brinquedos de luxo, mas com preços mais acessíveis. A Eureka encanta os pequenos pilotos com carrinhos que se assemelham aos das marcas Renault, Peugeot e por fim célebres carros de corrida como a (Petite Rosalie); a mais requisitada continua sendo a Bugatti; na Inglaterra se viam divertidas reproduções de ônibus londrino com pedais onde a cabeça da criança aparecia no teto do veículo.

 

Depois veio a guerra. Os carros para criança terminaram no esquecimento; os fabricantes tinham outras coisas em que pensar, mas ressurgiu no natal após a guerra, quando foram propostos novamente modelos dos anos 30, e começaram a surgir as primeiras novidades, entre elas a Jeep. Em 1949 na Inglaterra, para dar trabalho a duzentos mineradores inválidos, foi fundada a Austin Júnior Factoring de onde surgirá um delicioso spider, sendo produzido ao longo dos anos um total de 32.000 exemplares.

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No que se refere a Itália, em particular Turim, temos que assinalar dois acontecimentos de relevância. O primeiro foi como protagonista Piero Pátria, que em 1949 inventou um carrinho de três rodas chamado “Lucciola” com motor elétrico; ele foi apresentado na pista do estádio Comunale em ocasião de um jogo entre Turim e Juventus. Poucos exemplares foram produzidos, desses alguns estão em mãos de colecionadores. A segunda iniciativa foi em 1956, e trouxe a assinatura do engenheiro Edoardo Brero da S.I.L.A. que desenfornou um magnífico spider tipo Ferrari, batizado “Bimbo Racer V.12”: motor elétrico com velocidade de 8km/h, produção 1.000 exemplares, preço quase igual a um carro de verdade. Dois “Bimbo Racer” pertenceram aos netos.

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 Eisenhower e de Kruscev

 Existem tantas outras coisas para contar considerando a segunda metade do século, mas o espaço não permite. Histórias de carros com pedais, com motores elétricos, de carrinhos dos sonhos e com bom preço, de mostras, de corrida, de museus, de antigos carrinhos restaurados, os modelos excepcionais como aqueles de Francis Mortarini, de Franco Sbarro, e de Roberto Agostini. Nos contentamos por hora  com este artigo.

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Texto: Arnaldo Tufani
Fotos: Divulgção