– Para fazer viagens longas, o carro deve ser novo!

Por muito tempo carreguei este jargão em minha mente, implantado por amigos e parentes mais velhos e talvez por isso tenha deixado de realizar ótimas viagens, já que meus primeiros carros passavam longe de serem novos (e os atuais também).

Os passeios limitavam-se a percursos possíveis de ir e voltar no mesmo dia, conhecidos por “bate e volta”.

Como amante de carros em seu habitat natural (as estradas), venho iniciar esta série de colunas, cujo título é precedido da expressão “Grandes Viagens de Carro”, com histórias protagonizadas por heróis e suas máquinas sob o mesmo tema. 

Há muitos anos, aqui em Ilhabela era muito comum encontrar argentinos em férias a bordo de carros tão combalidos, que pela aparência não ofereciam confiabilidade nem para ir até a próxima esquina. Mais tarde fiquei sabendo que os hermanos tem o saudável hábito de valorizar suas férias, e para viajar quem não tem carro novo usa o que tem e nosso país, com suas praias tentadoras é um convite para as grandes viagens de carro.

Também tenho observado a grande quantidade de histórias de viagens rodoviárias envolvendo os habitantes do país vizinho e por isso decidi iniciar esta série com uma dessas histórias nascidas na Argentina, porém protagonizada por um suíço nascido na pacata aldeia de Zofinguen, o aventureiro e escritor Aimé Félix Tschiffely, conhecido como o maior cavaleiro de longa distância de todos os tempos devido a seu grande feito, o de simplesmente percorrer sozinho 16.000 Kms a cavalo de Buenos Aires a Nova York.

Mas como este suíço foi parar na Argentina?

Em busca de aventura desde cedo, em 1910 Aimé mudou-se para a Inglaterra onde estudou e revelou-se um leitor fervoroso. Em função disto surgiu a oportunidade de lecionar no  St.Georges College, em Buenos Aires em 1917.

Em 1925 conheceu Dr.Emilio Solanet, um dos maiores criadores de cavalos da raça crioulo da Argentina, ao qual propôs o desafio espetacular de cavalgar com dois de seus cavalos (a dupla Mancha e Gato) até a cidade Norte Americana.

Para quem quer saber mais sobre a aventura, segue o site oficial http://www.aimetschiffely.org/welcome.htm .

Mas o foco da coluna não são as viagens equestres e sim as realizadas com uma certa máquina, que acredito compartilhar da admiração com o leitor de AutoClassic.

O que poucos sabem, é que após a viagem que lhe dera fama, A.F.Tschiffely, como assinava seus livros, percorreu o caminho de Bajo Caracoles ao Vale Chacabuco, na Patagônia Argentina, no verão austral de 1938-1939 desta vez não cavalgando, mas dirigindo um automóvel, mais especificamente um Ford.

Muitos aventureiros contemporâneos montados em seus Land Rover ou BMW GS
 equipadas com tudo o que há de melhor, desde inúmeros equipamentos eletrônicos de navegação, celulares via satélite e roupas especiais, orgulham-se de terem percorrido as estradas desta região, conhecida e respeitada no mundo todo, devido às suas características climáticas e de pouca estrutura. Imagine tudo isso há oito décadas e sem conhecimento mecânico.

Mas isso não significa falta de planejamento e sim a inexistência destes recursos, sendo assim ele partiu de Buenos Aires num robusto Ford de duas portas e teto rígido acompanhado de um mecânico de automóveis. “Como meus conhecimentos de mecânica eram quase nulos”, escreveu em seu livro This Way Sauthward, “achei conveniente ter um profissional comigo nos primeiros dias da viagem. Se o carro andasse bem, eu o enviaria de volta à capital de trem”.

Tschiffely dirigiu mais de 11.000 Km por caminhos de estradas muitas vezes inexistentes. Sua viagem seguiu mais ou menos o roteiro da atual Ruta Nacional 3 argentina, estrada que hoje muitos aventureiros utilizam até Ushuaia, a cidade mais austral do planeta, chegando à cidade de Rio Gallegos. De lá, tomou um avião até Rio Grande, na Terra do Fogo, e foi a cavalo até o Lago Fagnano, próximo a Tolhuin. O clima ruim não permitiu que ele chegasse até Ushuaia e, depois de voar até o Rio Gallegos, dirigiu seu Ford até Punta Arenas. Do Estreito de Magalhães, continuou até El Calafate e o Lago Viedma, onde a partir daí, retornou a Buenos Aires por caminhos desafiadores até mesmo nos tempos atuais.

Histórias como a de Tschiffely, nos fazem pensar que se ele conseguiu vencer os inúmeros obstáculos em tempos tão remotos, hoje mesmo utilizando um carro antigo, desde que bem revisado e com um planejamento impecável, uma viagem ousada torna-se perfeitamente possível.

Há alguns anos atrás, estivemos na Patagônia, porém do lado chileno com outro Ford, bem mais novo que o de Tschiffely. Quem sabe da próxima vez a gente não desce um pouquinho mais ……

 

Até a próxima coluna

Wagner Coronado