Fio de seda mental, por Christopher Connolly


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Susan B. Anthony afirmou, “Penso o seguinte sobre andar de bicicleta: ela fez mais pelas mulheres do que qualquer coisa neste mundo.” Andando de bicicleta, observou a defensora de direitos iguais, mostra “a face da feminilidade livre e desimpedida”.

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Susan B. Anthony – foi uma feminista que junto com Elizabeth Cady lutou pelo Direitos das Mulheres.

Susan e suas companheiras do século XIX sofreram muitas restrições no seu tempo. Esqueça as barreiras profissionais, as mulheres daquele tempo eram prisioneiras das próprias vidraças. A luta por “o mesmo salário pelo mesmo trabalho” estava décadas distante.  A causa da mulher vitoriana estava mais para “Gostaríamos de sair de casa de vez em quando… por favor…. se não for incômodo.”

As mulheres já foram consideradas frágeis demais para andar de bicicleta

Naquela época a moda feminina expressava desamparo e fragilidade. Pense na figura da mulher vitoriana: pálida, doentia, dependente do homem para tudo, arriscando-se, às vezes, a espiar por trás de um leque (geralmente antes de tocar a testa com o pulso e desmaiar). A fragilidade de uma “senhora” era tal que a impedia de estudar, trabalhar e votar; não fazer quase nada era visto como algo sensato.

Obviamente, havia a percepção de que algo dessa fragilidade toda era uma injunção social. Um cavalheiro, caminhando até o mercado, cruzaria com dezenas de trabalhadoras das classes mais baixas. E talvez até empregasse uma delas para auxiliar as compostas senhoras de sua casa, ocupadas com conversinhas, rubores e desmaios. Mas os homens não enxergavam essas mulheres como senhoras educadas. Uma dama deveria ser fraca, sem defesa e totalmente dependente dos homens.

 

Meninas francesas com suas bicicletas

Três quilos na roupa de baixo

É evidente que as mulheres não sofreram qualquer alteração fundamental em sua fisiologia nos últimos séculos, então como explicar a vida moderna que levam, independente e livre de desmaios?
Para começar, a dama vitoriana raramente se exercitava ou tinha qualquer atividade física, o que implica em mau condicionamento. Além disso, a moda era ser frágil.   Assim como das americanas dos anos cinqüenta esperava-se que fossem June Cleaver (June Cleaver é um personagem da televisão americana, a matriarca do clã Cleaver, e foi interpretada no cinema por Barbara Billingsley. Sempre arrumada, de colar de pérolas, jamais perdeu o sorriso e tinha sempre um prato de biscoitos para oferecer ao visitante) e as jovens de hoje devem ter a independência de Gwen Stefani (cantora, compositora, estilista americana, lançou-se com a banda No Doubt em 1992) , a mulher vitoriana deveria adotar certos comportamentos.

 

O terceiro fator da fragilidade da mulher vitoriana era sua vestimenta. Tipicamente pesada, exagerava a silhueta feminina e ao mesmo tempo escondia o corpo. As curvas eram destacadas com espartilhos apertados que, junto com as longas e pesadas roupas de baixo, limitavam a capacidade das mulheres de mover e até de respirar. (Donde os desmaios).  Essa vestimenta não só visava restringir a mulher fisicamente como, também, moralmente. Numa sociedade onde a visão de um tornozelo equivalia a uma “lap dance” moderna, tal vestido destinava-se a proteger a virtude de uma senhora. O termo “solta” era usado para descrever a mulher que andava sem espartilho, enquanto “compostas” eram as mulheres que obedeciam aos ditames sociais.

Algumas mulheres terminaram por rebelar-se e, em 1888, uma carta publicada no The Rational Dress Society – de um grupo de mulheres que lutavam por uma vestimenta mais inteligente – afirmou, “o peso máximo da roupa de baixo (sem os sapatos) aprovados pelo The Rational Dress Society, não pode exceder os três quilos”.
Três quilos de roupa de baixo? Um progresso? É muito mais que qualquer top de ginástica. Obviamente as mulheres precisavam mudar de roupa de baixo. É onde entra a bicicleta.

 

Uniforme de entrada

 
No fim do século XIX, a popularidade das bicicletas explodiu. Por exemplo, em 1880, um dos primeiros grupos de ciclistas, chamado League of American Wheelmen, possuía 40 membros; em 1898 já reuniam quase 200.000. Andar de bicicleta era tão comum que em 1896, o The New York Journal of Commerce avaliou que o hábito estava custando aos cinemas, restaurantes e outros negócios mais de 100 milhões de dólares por ano. Considerando a popularidade cada vez mais intensa da bicicleta, era natural que as mulheres também a usassem.

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Um dos primeiros grupos de ciclistas, chamado League of American Wheelmen

Antes das bicicletas, o cavalo é o melhor meio de transporte. O acesso das mulheres ao cavalo, claro, era limitado. Cavalos eram perigosos e de controle difícil; e uma convenção médica sugeria que montar poderia danificar os genitais femininos. As mulheres deveriam montar de lado, com as duas pernas juntas. Nessa posição artificial, elas não conseguiam percorrer grandes distâncias, realimentando a idéia que não deveriam montar.

Bicicletas, em comparação, eram de manipulação fácil. Não havia motivo porque uma mulher não pudesse subir numa bicicleta e dignamente pedalar para tão longe de casa como nunca estivera. Nenhum motivo a não ser sua pesada vestimenta e o dilema de que, se pedalasse, ou perderia a virtude ou morreria de exaustão.
Para que a mulher participasse da nova mania sem enroscar-se na corrente da bicicleta, ela precisava de saias mais curtas ou mesmo (horror!) uma vestimenta bifurcada chamada “bloomers”. Também seria necessário sair de casa e fazer exercícios físicos – atividades antes consideradas impróprias.

vestimenta bifurcada chamada “bloomers”.

A intensidade dos protestos contra as mulheres nas bicicletas é prova de como lutaram. As valentes mulheres que usavam uma roupa mais razoável eram criticadas, não tinham acesso aos lugares públicos e ridicularizadas nos meios de comunicação. Um poema satírico publicado em jornal americano, por exemplo, sugeria que os “bloomers” eram uma espécie de “uniforme de entrada” cujas usuárias poderiam participar de ocupações menos nobres como negócios ou leituras.

Ciclistas femininas geralmente eram atacadas verbal ou fisicamente enquanto rodavam. Emma Eades, uma das primeiras ciclistas de Londres, foi atingida por tijolos e pedras. Homens e mulheres, igualmente, exigiam que ela voltasse para casa de onde não deveria ter saído e se comportasse convenientemente.  Muitos temiam que a mobilidade sem precedentes proporcionada às mulheres pela bicicleta as corrompesse moralmente. Uma empresa chamada The Cyclist’s Chaperon Association fornecia “senhoras de boa posição social para conduzir damas em passeios e excursões de bicicletas”. Tais senhoras deveriam satisfazer critérios exigentes para se qualificarem como guardiãs da virtude. Eram senhoras casadas, viúvas, ou solteiras com mais de 30 anos. Deveriam apresentar três referências pessoais, duas de senhoras de inquestionável posição social e outra de um clérigo da igreja – tudo isso para impedir que as mulheres tivessem sua moral degradada por suas bicicletas.

 

Apesar de tão evidente condenação social, os grupos ciclistas continuaram e acabaram por introduzir mudanças fundamentais na sociedade. As mulheres rodaram em suas bicicletas e, para espanto geral, não desmaiaram nem cometeram atrocidades morais.  Na verdade, elas descobriram o que todos que andam de bicicleta sabem: ela proporciona boa forma, descontração e mais vivacidade. As mulheres ganharam mais independência, melhor condicionamento físico e, como brinde, liberdade daquelas roupas constritoras e representativas das cadeias sociais.

 

 

O veículo da liberdade feminina

O censo americano de 1900, publicado mais de vinte anos após a introdução da bicicleta, afirmava, “Poucos objetos utilizados pelos seres humanos originaram uma revolução tão grande nas convenções sociais como a bicicleta.” Para as mulheres, isto foi especialmente verdade.

A bicicleta continua sendo a paixão dos pensadores avançados. Mesmo hoje ela é o centro de muitos movimentos reformistas. Jacquie Phelan, por exemplo, uma feminista “mountain biker”, fundou os WOMBATS ou Women’s Mountain Bike and Tea Society. Eleita três vezes campeã mundial como uma das dez melhores mountain bikers de todos os tempos, Phelan luta incansavelmente pela igualdade. Advoga dois preços para bicicletas, baseada nos 59 centavos de dólar que cada mulher ganha para cada dólar ganho por um homem. (ela inspirou-se no fato de ter recebido os 400 dólares dados aos homens, por ter chegado em sexto lugar numa corrida, em lugar dos 42 dólares destinados às mulheres.)

 

Como a bicicleta continua auxiliando as mais variadas causas, é importante lembrar qual foi sua primeira batalha. Liberação é palavra facilmente associada à bicicleta. Pedalar numa estrada com o vento batendo no rosto é uma experiência libertária, mas para as primeiras ciclistas, um simples passeio de bicicleta foi libertário de modo muito mais profundo.

 

Fontes:
Texto original publicado no site CNN.com International/living
Título original: “Mental Floss” Fonte: Escola da bicicleta

 

Saudações,

Teresa Gago
Portal AutoClassic
Rio de Janeiro  – Brasil