Pessoas que foram tão importantes na criação de um carro que se tornaram “pais” de sua criação. No começo do automóvel isso era comum, mas com o avanço da tecnologia muitos e muitos profissionais são necessários para que um carro “nasça”. Mesmo assim podemos dizer que Lee Iacocca é o pai do Mustang, Harley Earl é o pai do Corvette e Ferdinand Porsche o pai do Fusca. Muitos outros engenheiros, executivos e designers podem ser considerados pais de veículos devido a importância que tiverem em seu desenvolvimento. Mas carro não tem mãe? Apesar de não serem tão conhecidas, claro que tem !

As mães dos carros antigos são quase que todas da equipe formada por Harley Earl na GM. Elas foram as responsáveis pelo Spring Fashion Festival of Women Designed Cars em 1958. Antes haviam Betty Thatcher Oros, designer da Hudson nos anos 30, Helene Rother que entrou na GM em 1943, Audrey Moore Hodges que trabalhou na Studebaker e Tucker. Em 1955 Earl monta o que ficou conhecido como “Damsels of Design”, a equipe de nove mulheres selecionadas por ele para trabalhar com a Chevrolet, Buick, Cadillac, Oldsmobile e Pontiac e também na Frigidaire, principalmente nas escolhas de cores e desenvolvimentos dos interiores dos automóveis.

O ápice do grupo foi em 1958 durante o Feminine Auto Show, com a apresentação de 2 carros de cada marca. A Chevrolet participou com um Impala Martinique da Jeanette Linder e um Corvette de Ruth Glennie. A Buick se fez presente com dois carros assinados por Marjorie Pohlman, os Tampico Buick e Shalimar. Peggy Sauer preparou uma perua Oldsmobile Fiesta Carousel especial para quem tinha crianças pequenas e um Rendezvous Ninety-Eight. Da Pontiac um Star Chief e um Bonneville Polaris foram preparados por Sandra Longyear. Sue Vanderbilt apresentou dois Cadillacs, um Saxony e um Eldorado Seville batizado de Baronesa, que até telefone tinha. Pouco depois Earl se aposenta e seu sucessor, Bill Mitchell, não mantém a equipe que se dispersa por outras companhias. Sue Vanderbilt continua na GM e se torna como designer da Cadillac e mais tarde sênior designer na Chevrolet, chegando a chefe Chevrolet Interior Studio II em 1971, sendo a primeira mulher a ocupar tal cargo.

Uma bem conhecida no nosso meio é a mãe do Santa Matilde, Ana Lídia. Filha do dono da Companhia Industrial Santa Matilde, empresa fundada em 1916 para a produção de vagões e componentes ferroviários, é atribuída à ela o desenho do automóvel projetado por Milton Peixoto e Antonio Manuel Penafort.

Flávia Cattaneo talvez não possa ser considerada mãe, mas que seus relatórios e de suas quatro companheiras de trabalho ajudaram muito o desenvolvimento dos carros da Chevrolet, isso é inegável. Piloto de testes da GM no campo de provas de Cruz Alta em Indaiatuba (SP) ela ressalta que as mulheres têm “uma sensibilidade maior que os homens para avaliar certos aspectos, como a costura do volante, a textura do tecido dos bancos, a rigidez da direção ou a posição da alavanca do freio de estacionamento”.

Apresentado em 2016 o Seat Cosmopolitan é uma versão da subsidiária espanhola da VW feita pensando nas leitoras da revista Cosmopolitan, “o carro mais feminino já feito”, nas palavras da orgulhosa mãe Susanne Franz, Diretora Global de Marketing da empresa.

E não só as cores chamam atenção, Violetto ou Randy White, combinando com o interior champagne e púrpura, mas também equipamentos como sensores de estacionamento, controles de parada em ladeira,  aros com acabamento exclusivo, som de 300w e muitos outros detalhes.

Em 2004 a Volvo apresentou um protótipo que teve várias mães, o YCC, fruto de uma equipe exclusivamente feminina dos departamentos de engenharia, design e marketing começou o projeto em 2002 com duas coisas em mente: 65% dos carros eram comprados por mulheres e influenciavam 80% das escolhas. O carro não possuí caput, pois toda manutenção devia ser efetuada em oficinas, possui compartimentos especiais para bolsas de mão, assistência para estacionamento em vagas laterais, capas de banco que podem ser trocadas com facilidade ( e com opções de material e cores), amplas portas asa de gaivota que podem abrir automaticamente com a proximidade da motorista que carrega muitos embrulhos ou tem de acomodar as crianças no banco traseiro.

O filho da designer Jeniffer Seely se interessa mais por desempenho que praticidade no dia a dia. Ela é mãe do Mustang High Gear de 2013, design inspirado pela alta moda e joalheria e premiado no SEMA Show.

Outras mães são responsáveis pelo nascimento de carros ao redor do mundo. Na GM Alicia Boler-Davis já foi uma super mãe acumulando as funções de chefe de engenharia do Sonic com a administração da fábrica do Orion, Mary Barra foi responsável por muitos carros quando ocupou o cargo de Vice-Presidente Global de Desenvolvimento de Produtos. O grupo Fiat/Chrysler possui muitas mães, como Chris Barman que liderou as equipes dos atuais Dodge Charger, Challenger e 300, La Shirl Turner, chefe de Design de Interiores responsável pelo Renegade, Winnie Cheung mãe do Chrysler 200 e Irina Zavatski responsável pelo Pacifica.

Tisha Johnson da já citada Volvo é a mãe dos interiores dos S90 e V90. O Acura NSX é filho de Michelle Christensen, designer que criou as atuais linhas do modelo, e a pick-up Nissan Titan 2016 é filha de Diane Allen. Na Ford Susan Lampinen foi a responsávelpelo interior do Mustang GT conversível e  Alexandra McGill na BMW, Janis Ambrose Shard na Toyota e Barb Samardzich na Ford também foram mães de alguns modelos, inclusive do Mustang 2005. E não podemos esquecer das mães do BMW Z4 Juliane Blasi and  e Nadya Arnaout.

Apesar de todas elas a participação das mulheres na industria automotiva não é tão grande, com a maioria das decisões tomadas por homens. Segundo o DIEESE, dos 90.063 empregados do setor automobilístico apenas 6.588 funcionários ou 7,3% do total, eram mulheres.

Na extinta fábrica da Chrysler no Parana 18% dos 280 funcionários da linha Dakota eram mulheres e na fábrica da Audi-Volks instalada em 1999 em São José dos Pinhais 10% eram mulheres, mesma porcentagem da Volvo). A unidade da Ford em Camaçari é a que tem mais mulheres, com 30% da linha de montagem dos modelos Fiesta e EcoSport e 15% do pessoal de pesquisa e desenvolvimento.

Só que essa ainda pequena participação da mulher tem um importante peso na fabricação dos automóveis, como explica Maristela Castanho diretora de planejamento de produto da Renault e mãe do Logan e Sandero: “A mulher repara muito se há lugar para tudo dentro do carro, para a limpeza, se o porta-malas tem ou não compartimentos para as compras não rolarem. Por conta das tarefas cotidianas, as mulheres tendem a transportar as questões do dia-a-dia para o automóvel”.

Barb J. Samardzich

Vice President and Chief Operating Officer, Ford of Europe

Não é à toa que as mulheres vem conquistando cargos nos departamentos de engenharia, design e como pilotos de testes.  Em alguns setores, como o design dos interiores e cores e acabamento, as mulheres são maioria. Na Color&Trim da Ford são sete mulheres para dois homens. Para a coordenadora Adília Afonso, que foi a primeira mulher designer de interiores da indústria brasileira, a percepção feminina é mais abrangente. “A mulher brasileira, em geral, olha para o carro e pensa: como vou mantê-lo limpo? Isso vem no nosso DNA, a própria experiência como mulher ajuda muito. Somos mais delicadas”.

Maria Célia Zikan, engenheira chefe da PSA Peugeot Citroën, fez parte do desenvolvimento da linha 207 diz que  “a vantagem da mulher na engenharia é a criatividade. Não vejo diferença técnica, mas de vez em quando propomos algo diferente do que um homem faria”.

Alguém vai duvidar do amor de mãe ?

  1. Gustavo – Antigos de Itaipu